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Tontura e Perda de Equilíbrio: Causas Neurológicas

Dr. João Guttierrez22 de set. de 20263 min de leitura
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A tontura é um sintoma tão comum quanto inespecífico. Praticamente todo mundo já sentiu aquela sensação de "cabeça leve" ou de que o ambiente está girando em algum momento da vida. Na grande maioria das vezes, a causa é benigna e não neurocirúrgica. Mas existe um subgrupo de pacientes em que a tontura é a única manifestação de um AVC no tronco cerebral ou no cerebelo — e reconhecer esse cenário rapidamente pode mudar completamente o desfecho.


O que é vertigem e como ela difere da tontura inespecífica?

Vertigem é a sensação de que o ambiente ao redor está girando ou de que o próprio corpo está em movimento, mesmo estando parado. Ela reflete uma disfunção do sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio e pela orientação espacial. Esse sistema tem duas partes:

  • A parte periférica, localizada no ouvido interno (labirinto e nervo vestibular)

  • A parte central, que envolve o tronco cerebral e o cerebelo, estruturas que processam essas informações


Como diferenciar vertigem periférica de vertigem central?

Essa é, na minha visão, a pergunta mais importante que um médico precisa responder diante de um paciente com tontura súbita, porque as duas causas têm gravidade completamente diferentes:

  • A vertigem periférica, como a labirintite ou a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), costuma ser intensa, frequentemente desencadeada por movimentos da cabeça, e pode vir acompanhada de zumbido ou perda auditiva

  • A vertigem central, causada por um AVC de cerebelo ou tronco cerebral, costuma vir acompanhada de outros sinais neurológicos, como visão dupla, dificuldade para falar, desequilíbrio importante ao andar ou alteração de sensibilidade em um lado do corpo

No exame físico, uma ferramenta chamada HINTS (avaliação do movimento dos olhos ao mover a cabeça, do nistagmo e do alinhamento ocular) ajuda a diferenciar as duas causas com boa precisão, sendo inclusive mais sensível que a ressonância magnética nas primeiras horas de um AVC de fossa posterior.


Quais sinais de alerta indicam que a tontura pode ser um AVC?

Fico sempre atento quando um paciente com tontura relata, junto com a sensação de desequilíbrio:

  • Visão dupla ou perda de visão súbita

  • Dificuldade para falar ou engolir

  • Fraqueza ou dormência em um lado do corpo

  • Incapacidade de ficar em pé sem apoio, mesmo sem a vertigem ser muito intensa

  • Dor de cabeça súbita e intensa associada à tontura

Estudos mostram que até 25% dos pacientes que chegam ao pronto-socorro com um quadro de tontura de início súbito e persistente têm, na verdade, um infarto do cerebelo — muitas vezes sem outros sinais neurológicos evidentes no primeiro exame. Por isso, a tontura isolada nunca deve ser subestimada quando surge de forma súbita e persistente, especialmente em pacientes com fatores de risco vascular, como hipertensão, diabetes ou tabagismo.


Quando devo procurar atendimento de urgência?

Diante de tontura súbita associada a qualquer um dos sinais de alerta citados acima, a recomendação é buscar atendimento de emergência imediatamente. Mesmo quando a tontura parece "apenas" labiríntica, um exame neurológico bem feito é a melhor forma de descartar uma causa mais grave.


Ao longo da minha trajetória, aprendi que os sintomas mais simples podem esconder as histórias mais complexas — e que cabe a nós, médicos, ter humildade para investigar cada detalhe com atenção, sabendo que muitas vezes a ciência encontra seus limites e é preciso confiar em algo maior para conduzir cada desfecho.

Este foi o quarto artigo da série "Sintomas que Merecem Atenção". Na próxima semana, encerraremos a série com o tema "Convulsões: o que fazer quando alguém tem uma crise?" — um assunto essencial para qualquer pessoa saber como agir diante de uma emergência neurológica. Até lá!

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Reconheceu algum desses sinais em você ou em alguém da família?