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Por Dentro do Centro Cirúrgico: Entenda a Discectomia Cervical Anterior com Artrodese (ACDF)

Dr. João Guttierrez30 de out. de 20263 min de leitura
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Sejam bem-vindos a mais um artigo da série "Por Dentro do Centro Cirúrgico". Minha proposta aqui é simples: tirar o medo do que é desconhecido. Quando entendemos o que vai acontecer, a ansiedade diminui — e isso eu aprendi na pele, literalmente, muito antes de me tornar neurocirurgião.

Hoje vou falar sobre uma das cirurgias mais realizadas na coluna cervical: a discectomia cervical anterior com artrodese, conhecida pela sigla ACDF (do inglês, Anterior Cervical Discectomy and Fusion).


O que é a hérnia de disco cervical?

Os discos são como amortecedores entre as vértebras do pescoço. Com o tempo, ou por desgaste, uma parte do disco pode se deslocar e comprimir um nervo ou a medula. Isso costuma causar dor no pescoço, dor que irradia para o braço, formigamento e, em alguns casos, perda de força na mão.


Para quem essa cirurgia é indicada?

Nem toda hérnia cervical precisa de cirurgia. Na maioria dos casos, fisioterapia, medicamentos e tempo resolvem o problema. A ACDF entra em cena quando:

  • Os sintomas persistem, de moderados a intensos, mesmo após tratamento conservador adequado;

  • Há perda de força progressiva no braço ou na mão;

  • Os exames de imagem confirmam a compressão do nervo ou da medula compatível com os sintomas do paciente.

A literatura médica mostra que a cirurgia proporciona alívio mais rápido da dor nesses casos do que continuar apenas com tratamento não cirúrgico.


Como o procedimento é realizado?

Explico sempre de forma simples, porque não há nada de assustador aqui. A cirurgia é feita por um pequeno acesso na parte da frente do pescoço, geralmente por uma prega natural da pele, o que deixa uma cicatriz discreta.

Com o auxílio de um microscópio cirúrgico, afasto delicadamente as estruturas do pescoço até alcançar a coluna, sem cortar músculos importantes. Removo o fragmento de disco que está comprimindo o nervo e, em seguida, coloco um pequeno implante (cage) no espaço, algumas vezes associado a uma placa de titânio, para:

  • Manter o espaço entre as vértebras;

  • Permitir que elas se fundam (artrodese) ao longo dos meses seguintes;

  • Dar estabilidade imediata ao pescoço.

É um procedimento com décadas de uso, resultados consistentes e tecnologia bastante refinada.


A cirurgia costuma funcionar?

Sim, e os números confirmam. Estudos de acompanhamento de longo prazo mostram melhora significativa da dor e da função em cerca de 85% a 95% dos pacientes, com praticamente resolução dos déficits neurológicos na maioria dos casos. A maior parte da melhora acontece já nas primeiras semanas após a cirurgia.


Como é a recuperação e a alta?

A maioria dos pacientes recebe alta no dia seguinte à cirurgia. Nos primeiros dias, é comum sentir um desconforto leve para engolir ou uma rouquidão passageira, que tende a melhorar rapidamente.

De forma geral:

  • O retorno à condução de veículos ocorre em cerca de 16 dias;

  • O retorno ao trabalho também costuma acontecer por volta de 16 dias, variando conforme a atividade exercida;

  • A maior parte da melhora da dor no braço acontece nas primeiras duas semanas, e a dor no pescoço continua melhorando ao longo de três a quatro meses.


Quais são os riscos?

Como em toda cirurgia, existem riscos, embora sejam incomuns. Os mais discutidos são dificuldade temporária para engolir, falha na fusão óssea (pseudoartrose) e, a longo prazo, desgaste do disco vizinho ao que foi operado — algo que faz parte do processo natural de envelhecimento da coluna e não necessariamente uma complicação da técnica.

Divido tudo isso com transparência porque acredito que um paciente bem informado enfrenta a cirurgia com mais serenidade. Faço minha parte com toda técnica e dedicação que a medicina moderna me permite — mas, como sempre repito, entendo que sou apenas um instrumento nas mãos de Deus, o verdadeiro responsável por cada recuperação.

No próximo artigo da série, vamos falar sobre outra cirurgia muito comum: a laminectomia descompressiva para estenose do canal lombar, indicada para quem sente dor e peso nas pernas ao caminhar. Até lá!

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